segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Trejeitos

O jeito que você me olha
Lentamente mastigando minha paciência
Como se minha vida fosse uma ciência
Em que pudesse experimentar

O jeito que você me chama
Sussurrando cada sílaba do meu nome
Até que eu me viro e você some
E eu fico olhando o nada

O jeito que você canta
Estapeando cada um dos meus sentidos
E eu em dor, em mil gemidos
E você olhando o céu

O jeito é continuar a viver
Pensando num jeito de te esquecer

Buquê

Sozinha chegou e sozinha saiu
Uma mulher de roupa branca
Cantando os versos de Espanca
Tomando vinho do cantil

Andava por toda a sala
Mexendo todos os dedos
Guardando seus próprios segredos
Sentada num banco que estala

Fechou todas as janelas
Olhou as pinturas belas
Comeu um pedaço de pão

Subiu todas as favelas
Curou todas as mazelas
Chorou e molhou o chão

domingo, 29 de agosto de 2010

Pré-Letrada

Névoa cobrindo o rosto da memória
Passo a passo desfazendo
Caminhando e esquecendo
Mudando o resto da história

Tirando leite de nuvem
Esculpindo fumaça
Bebendo ar
Comendo fala

Lua incandescente queimando aos olhos nus
À beira da estrada, fazendo nada
Jogando pedras n'água
Pensando em amores crus


Solidão bem acompanhada
Sem palavras pra te dizer
Sem saber como entender
Silêncio entre eu e você

quinta-feira, 29 de julho de 2010

O Homem que Amava Caixas

Estava perdido entre tantas estantes de livros empoeirados, fascinado pelas capas antigas dos livros, que me olhavam de forma desconcertante. Há livros demais no mundo. Nunca conseguirei ler todos eles.
Ele sai de trás de uma das estantes carregando um grande estojo de couro vinho, com um fecho dourado. Olha pra mim.
- Que belo estojo, não?
- Realmente, um belo estojo. De quê?
- Não sei, mas adoro caixas. E um dia meu filho há de escrever um livro: "O Homem que Amava Caixas"

[...]

Ao chegar em casa, coloca o estojo perto de tantas outras caixas. Vazias?
E à noite, no escuro, olhava para aquelas caixas. E pra quê tantas caixas?
E comecei a folhear os livros daquela estante. O dedo passando pelos vãos entre um e outro, sentindo a poeira que ali estava para comprovar a longa vida daquele objeto inanimado que, sem ter vida, dá vida a pensamentos. E vi a poeira, a tênue poeira que começava a se juntar sobre aquela caixa. Aquele estojo.

Vinho.

Adoçava minha boca enquanto eu continuava a pensar. Pra que diabos tantas caixas? E parecia preso numa rota fechada que me fazia circular por todo o quarto. E de repente pensei naquilo que ele levava para todo lugar. Mas aquilo que de alguma forma parecia ficar contido naquelas caixas. Poesia, histórias, causos, piadas, amores, desventuras, traquinagens, teimosias, rebeldias, coragens, medos, crepúsculos, alvoradas, noites e madrugadas. E aquela poeira assentava sobre aquelas caixas abarrotadas. De vida.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Baço

Fui conversar com o espelho:

- O que te aflige meu caro amigo?
- Não sei dizer ao certo.
- Mas se você não sabe, quem é que pode saber?
- Mas se não souberem não poderão fazer nada.
- E mesmo se soubesse, o que é que iam fazer? Arrancar meu coração do peito?
- Se for necessário. Ver seu sangue pode te provar que você está vivo.
- Ou que estava.

[...]

-Vou correr, mas pra onde?
- Por que não tenta ir até o Horizonte.
- Mas o que me espera lá? O Sol pra me queimar, ou a escuridão pra eu me perder?
- Quem disse que você precisa da luz pra te guiar?
- E vou seguir o quê? Meu coração? Não sei se você já reparou, o único lugar que vou chegar seguindo meu coração é atrás das minhas costelas.
- E se os outros soubessem? Já não teriam arrancado seu coração.
[...]
- Vai saber aonde eles o iriam deixar.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Em cima do piano

Vou sentir saudades calado
Vou passar minha tardes só
Vou ver meus filmes
Vou ficar embriagado

Vou andar devagar
Imaginar minhas pegada atrás
Olhar pro céu, fechar os olhos
Pensar na vida e pensar

Vou tirar o sapato
Andar na grama
Ver o Sol apagado
Ver quem é que derrama

O copo cheio de rancor que em cima do piano ficou.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Aponta pra fé e rema.

Hoje eu ajoelhei para rezar. Rezar para quem? Rezar por quem? Rezar para quê? Os pensamentos passavam velozes na minha cabeça enquanto eu vasculhava meu arquivo de preces procurando algo pelo que rezar. Não estava sendo uma tarefa muito fácil, e meus dedos ficaram impacientes. Começaram a tamborilar. Minha prece foi desbotando. Meu pé começou a se mexer repetidamente, como se quisesse ir para algum lugar, como se tivesse pressa para encontrar alguém. Em minha prece já não restava o menor indício de cor. Meus olhos piscavam loucamente, como se uma luz num fim de um longo e escuro túnel os cegasse. Lentamente minha prece se tornou uma longa divagação.

Me levantei e sentei na cama. Não havia mais razao para permanecer em posição de penitência se eu não estava me reportando a nenhum ente superior que exige meu arrependimento. Revisitei meu passado e todas as coisas em que deixei de acreditar. Divindades, ideologias, pessoas. E por aí já se ia o quinto cigarro. Drogas.

Já me disseram que o caráter de um sujeito se mede pela convicção que ele tem em suas crenças. Naquele momento me senti ofendido. Afinal, que eu me lembrasse não me restava nenhuma crença.

Aponta pra fé e rema.

Fé em quem? Em mim mesmo? Essa eu já tinha perdido há muito tempo.
E vem algo da TV. "Acredite na beleza". Olhei para aquele enorme aparelho e vi o modelo ideal de mulher. Mera estratégia de vendas. Mas a frase continuou martelando em minha cabeça.

Eu acreditava na beleza? Saí para caminhar, procurando identificar a beleza (a real beleza, não a dos cosméticos). Comecei procurando em lugares óbvios. Museus, cinema, natureza. Não me satisfazia. Sempre procurando em novos lugares, esperando ver a cada esquina a beleza encarnada. Após semanas exaustivas de busca eu desisti. Minha última esperança de crença tinha ido embora. Me conformei em ser um sujeito sem caráter.

Os meses passaram. Mesmo que imperceptíveis, já haviam mudanças em meu rosto. Meu cabelo estava diferente. Mas eu continuava me olhando no espelho como um estranho. Peguei minha mochila e saí daquela casa estranha, que por algum motivo chamava de minha. Hoje eu tinha destino certo.

Meu encontro era com o outro lado da parede. E num piscar de olhos a teoria ganhou vida. Via na minha frente o poço dos olhos perdidos em velhas lembranças, me contando cenas que assombrariam meus sonhos nas semanas seguintes. Mas por mais perdida que parecesse a situação, senti ali um toque de esperança, uma firmeza na voz própria daqueles que tem uma causa, que lutam. E aquela sala tão precária assumiu cores que eu não havia percebido nos museus em meses passados. Olhei de pontos de vista que nem uma câmera conseguiria captar. Na saída até a grama parecia ter um cheiro diferente.

No ônibus só conseguia pensar. Lembrando dos últimos meses vi que as coisas não tomaram cor de repente. Alguma coisa vinha acontecendo. Alguma mudança que eu não havia reparado, que me vinha fazendo ver novos traços a cada dia.

A noite caiu, as pessoas foram para suas casas. Eu estava ali sentado, com pessoas que riam de mim, e uma taça de vinho nas mãos. Eu ria com elas. Afinal, era engraçado. No fim da música eu me dei conta das pinturas em volta. Quando começou outra música, me encantei com os acordes.
E pensei: "Música bonita"

"Bonita"

O que eu vinha enxergando era beleza.

Voltei a alguns cinemas, vi uma ou outra obra de arte, entrei em contato com a natureza, e voltei a acreditar na beleza.

De onde ela veio? Onde ela estava que antes eu não conseguia achá-la?

Estava ali o tempo todo. Mas a beleza é como um bife. Pode ser o melhor bife do mundo, mas você não gostaria de comê-lo sem tempero. Então eu tinha encontrado o tempero.

Boa companhia.

Bons amigos.

Eu acredito na beleza.

E de repente a fé voltou. Ajoelhei e rezei. Pra mim mesmo.